Novo Livro- Onze bandeirinhas
ONZE BANDEIRINHAS, DE SALOMÃO LARÊDO: VISITANDO ALGUNS ASPECTOS DA OBRA E UMA PERSONAGEM EM ESPECIAL – A PROSTITUTA PUGA MANTEGACom uma obra surpreendente e entusiasmante nascida no bairro do Guamá, o novo livro de Salomão Larêdo está chegando e através de uma análise apreciativa da Professora Msc. Nellihany dos Santos podemos já conhecer um pouco da obra. Em breve lançamento e disponível nas livrarias!
Nellihany dos Santos Soares
Onze Bandeirinhas – Onze janelas – Passagens do Guamá – bandeira de açaí-bandeira de bacaba – bandeira de miriti – romance performance aplicação situação memorial descritivo da vida na Amazônia, é o mais novo romance de Salomão Larêdo, a ser publicado em agosto de 2024, durante a 27ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes. A começar pela grandeza do título, a ficção do autor surpreende, visto que nasce de histórias, estórias e de uma certa ligação (pelo menos na minha leitura) com a denominada sétima arte, o cinema.Não esqueçamos que um escritor é um criador e como tal, faz uso de toda a habilidade que tem na escrita e no conhecimento sobre a vida, sobre as pessoas, imagens, fatos, referências de tudo aquilo que leu e viveu... Isso é para justificar que o referido romance não se concentra no óbvio, no esperado. Ele nos tira desse lugar confortável ao qual estamos acostumados e rouba nossa concentração, porque muitas vezes labiríntica, mas não incompreensível, pelo menos não depois de uma releitura e de algumas buscas para sanar uma ou outra hesitação. Bom, encontrei caminhos interessantes.Voltemos à obra. O cinema está nela, disso tenho certeza. Também a percorrem outras artes como a fotografia e a própria literatura – os intertextos são muitos. Há mitologia indígena amazônica, mitologia grega e romana, esta, aliás, representada pela história de Píramo e Tisbe, dois jovens que se apaixonam e que são proibidos pelos pais de viverem esse amor, resultando em suas mortes. Provavelmente uma inspiração para Shakespeare, e para Salomão Larêdo. Tragédias à parte, não esqueçamos que os tempos são outros, e que as histórias, trágicas ou não contadas pelo autor, receberam uma nova roupagem. Marca de quem bebeu em fontes diversas, vanguardas europeias, principalmente. Em Onze Bandeirinhas o cenário é o mundoamazônico! O bairro do Guamá, periferia de Belém.Por falar em cinema, os franceses Andre Bazin e Jean-Luc Godard, cineastas e críticos de cinema dos mais importantes também são referências para Larêdo, que cita uma frase reflexiva escrita por Bazin que diz “o cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com os nossos desejos”, na qual se atreveu em substituir a palavra cinema por “literatura”, pois acredita que a literatura também tem esse poder de envolver tudo e todos, incluindo nossos desejos, contribuindo para um mundo utópico, mesmo diante de concretas e fatais distopias. Além da frase citada, desconfio (desconfio porque não sou uma estudiosa do cinema) que o autor fez uso de elementos próprios dessa arte durante a criação da narrativa. Tentando entender certos elementos no texto, fui em busca de algumas informações sobre os cineastas citados e sobre o filme no qual Godard cita a tal frase usada por Larêdo.O filme é o drama Le Mépris (1963), cuja tradução é O Desprezo, dirigido por Godard. O filme vai contar a história de amor vivida por dois personagens e os distanciamentos vivido por eles. Vale dizer que o filme é uma adaptação de uma obra literária, e que essa história de amor não acontecerá de forma simples, pois o “simples” não acontece nos filmes de Godard. Aqui me permito fazer uma rápida comparação do cineasta com o escritor Salomão Larêdo, para quem o trabalho literário nunca é simples, porque o simples é sempre inesperado, imprevisível.Uma outra comparação pertinente do filme com o livro Onze Bandeirinhas é que no primeiro plano do filme, o próprio Jean Godard narra os créditos do filme, tal como o faz Larêdo em Onze Bandeirinhas, deixando seus leitores a par de suas intenções na narrativa e/ou explicando palavras específicas e outros elementos que considera importante. No filme, as cores são presença marcante, principalmente o vermelho, o amarelo e o azul. Essas cores me fizeram pensar sobre a capa do livro de Salomão Larêdo, na qual o vermelho e o amarelo ganham destaque, sugerindo o desgaste ou o entusiasmo das paixões, violência, morte, desgostos, alegrias, vitalidade, sexo...Uma última comparação é sobre a divisão da obra. No cinema temos cenas, na literatura, capítulos. Mas a maneira como Onze Bandeirinhas foi organizada, são 11 Cenas acompanhadas de uma fotografia cada, divididas em 11 Partes que recebem nome de cores, que comportam 11 seções. Tudo parece contribuir para um grande filme prestes a perpassar diante de nossos olhos! A insistência pelo número 11, dentre outras coisas, pode significar o além, a transgressão, o símbolo dos excessos humanos. Não teria a obra de Larêdo todas essas características?!Para finalizar, gostaria de mencionar uma personagem que logo no início da obra chamou minha atenção, isto porque ela se confunde com o objeto de pesquisa de minha tese de doutoramento – personagens prostitutas na literatura da Amazônia paraense. Seu nome é curioso: Puga Mantega. Não me atrevi em analisar seu nome, me limito em dizer que é uma mistura do vulgar com o erudito. Puga Mantega é uma prostituta de vários nomes, um para cada momento, para cada freguês. Oferecia serviço sexual de qualidade e cobrava por hora trabalhada, assim como fazem os psicólogos, por exemplo. É bom saber que uma prostituta não vende apenas sexo, algumas vezes ela é psicóloga, educadora, contadora e outras funções que o trabalho exigir. Seus clientes eram homens, mulheres...Observando as atitudes de Puga na narrativa, podemos dizer que ela é uma mulher transgressora, pois apesar de viver sob um estigma, é mulher livre e dona de seu corpo, dá e recebe prazer e não se sente culpada por isso. Segundo ela “Deus é quem promove o prazer” e se justifica ao afirmar que Deus não tem religião, pois “Deus é ser divino”. Essa maneira de Puga pensar me fez lembrar das prostitutas sagradas, as primeiras da história. De um tempo em que o sexo era sagrado e nada tinha a ver com dinheiro, e nem com o pecado. Fazer sexo era apenas uma forma de venerar a Grande Deusa, na qual todos adoravam e seguiam.Puga Mantega é prostituta de novos tempos, mulher que conquistou seu lugar de fala e aprendeu a conhecer os prazeres que o corpo pode proporcionar. Ela vê o sexo como libertação e acredita que veio ao mundo cumprir uma missão divina. Que missão será essa?! Fica o convite para a leitura de Onze Bandeirinhas

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