PORTO DO SAL BECO DO CARDOSO/BECO DO CARMO

Salomão Larêdo

Foto: Janduari Simões

- Mãaaeeeeeeee!!! Quero açaíiiiiiiiiii!!!!

- Puta merda filho da puta tu num me dá sossego aquele, eras-te, moleque, dá um descanso, me erra, sacana, parece até que tu tem solitária, come, come e come, e eu tenho que ser comida, comida, comida pra tu poder comer, comer, porque não há dinheiro que chegue, cecalhá tu pensa só na tua pança é?

Virgilina dialoga assim com seu filho que passava o dia nos becos , pontes, estivas, trapiches, portos, escadas, pedindo o que comer e empinando papagaio, jogando bola,peteca e tomando banho entre as embarcações naquela água suja de óleo queimado dos motores e de bosta despejada das lanchas.

Só de noite Ladino entrava pra dormir na rede fedorenta que ele mesmo pendurava no esse e só acordava às dez, plíquite ali na mesa do café querendo comer e a mãe que passava a noite fazendo a vida, puxava do sutiã surrado os trocados e mandava ele comprar pão, manteiga, leite, café, açúcar e cigarro.

-Ele estuda?

Pra quê? 

O moleque subia e descia as ruas , ladeiras e becos do Porto do Sal num shortinho curto e sujo, a cara só fiapo de manga, os dentes podres e um olhar vivo, sapeca , a boca cheia de palavrão de todo tipo e gosto pra homem ou mulher, novo ou velho, criança ou adulto, o melhor repertório.

Num descuido Virginia – como gostava de ser chamada – pegou filho. Tinha o maior cuidado, se prevenia de tudo que era jeito, mas na hora agá, o cara diz que paga mais, ela sabe da precisão, diz sim e o sujeito derrama nela quase dois dedos de sêmen. No final da noite dava pra encher garrafa, se juntasse o que fazia durante o dia pra agüentar o açaí com carne seca que Ladino comia de manhã e de tarde, com pirão de farinha, era litro, na certa e o dinheiro não sobrava, não dava pras necessidades, gastava tudo pagando quarto, comida, luz e o cartão do celular, a diversão, que fazia ela falava com a mãe, na ilha, pra saber dos reumatismos da mãe e da bebedeira do pai.

- Quem mandu tu nun querê istudá !!

Virgilina nem dava trela do mesmo jeito que ladino fazia e ainda respondia:

- Pra quê?


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