LINDA MENINA, BAGALI E O OLHO DE BOTO

BAGALI ,LINDA MENINA - na foto modelo autorizado - , A JIBOIA E O MUIRAQUITÃ E A TRANSMISSÃO PELA TELEVISÃO - Toda a floresta acompanhava e mais uns milhões de telespectadores assistiam à primeira externa transmissional da televisão, o funeral de uma jiboia e o luto do muiraquitã. Não houve transplante de coração que desse jeito. Os paramédicos juntaram na floresta de Carajás o coração delicado de uma jia, morta no trilho do trem, e deu rejeição. A jiboia não aceitou. Como não houve compatibilidade com o coração de um rato silvestre, no papo de um jaburu assustado por um bando de marrecas marajoaras, que zoaram forte anunciando novo dia; depois chegou, do Kilimanjaro, um órgão em perfeito estado, retirado com todas as cautelas e garantias de uma serpente com a mesma idade da outra. O transplante, porém, não pôde ser feito em virtude da falta de energia na aldeia Trocará, dos Assurinis, que afetou toda a área florestal, e, ainda que o cacique Poraqué se movimentasse no sentido de fornecer ao menos os choques para manter a respiração da jiboia, a serpente foi a óbito. Bagali não tirava por menos. Fazia aquilo com tal seriedade que levava à crença até o incréu. Quase nenhum pio. A procissão do enterro acontecia de madrugada após o canto das saracuras. Caminhantes florestais: jacamins, jabutis, jiboias, onças, mucuras, fauna e flora, animais e aves e o mágico bago olhar mimético de Bagali, que via javalis ali mudando conforme seu interesse. Ela circula performaticamente na floresta fazendo mesuras e sendo entendida e atendida pelos animais e plantas, criava ambiente cultural, topou com Camutás e suas filosofias. Liberados, eles grasnam, cantam, grunhem, zunem, chilram, rosnam e fazem todos a maior das sinfonias naquele mundaréu uns pedaços verdes e outros tisnados, outros com soja, outros com dendê e a estrada poeirenta e lamacenta, e isso fazia Bagali reinar e ficar com raiva dos pescadores que metiam vivinhas as minhocas nos anzóis e ela sentia a dor e o nojo e uma espécie de culpa e dó por aquela tortura que não compreendia, mas gostava de comer mapará fifite tostado e torrado no cuí da farinha.
Bagali, ô, Bagaliiiiiiii.
Já vou, mamãe!

Bagali, que ainda não sabia que a vida não é feita de ilusão – ou será? –, metia-se nela, horas a fio, nas brincadeiras com seus insetos, bichos e animais no terreiro e deixava a imaginação correr, entrava nos oníricos e sonhava, flutuava, encantava-se, perdia-se e tornava com os berros da mãe. (Fonte: Iivro Olho de Boto pág. 43-44)



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